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Capa Revista IPH - 14 - Especial Centenário Jarbas Karman
O hub de saúde Erick Vicente
Trabalho brasileiro premiado com menção honrosa no "2017 UIA-PHG International Student & Young Architect Competition - Smart, Green & Beyond: Healthcare Facility of the Future"

Para saber mais sobre o concurso, acesse: https://www.uia-phg.org/2017-competition

Como poderiam ser as unidades de saúde do futuro?


Refletindo sobre os caminhos que as instituições de saúde contemporâneas no Brasil, públicas e privadas, estão tomando - isoladas do contexto urbano e cada vez menos preocupadas em promover melhoras do convívio social - a resposta da pergunta acima deveria sugerir uma rápida mudança de paradigma. Portanto, a ideia aqui sugerida pretende ampliar os horizontes das unidades básicas de saúde da cidade de São Paulo na intenção de criar um equipamento social que possa oferecer à comunidade espaços de convivência, lazer, esporte, além de tratar a saúde dos habitantes locais de forma preventiva e humanizada.

Assim, surge o Healthcare Hub, uma clínica de saúde pública que, além de praticar a medicina preventiva, realizar exames básicos e tratamentos ambulatoriais simples, se abre para a comunidade oferecendo espaços de convivência, lazer e esportes. Associado ao programa misto de atividades, numa mescla de centro comunitário e de saúde, a proposta é que esse equipamento urbano seja gerido por meio de um sistema digital informatizado, conectado à internet, que organize os atendimentos e os exames, além de gerar dados epidemiológicos em tempo real para alimentar as estratégias públicas de gestão.

O território

O local escolhido para a implantação desse equipamento social foi um bairro da periferia de São Paulo chamado Vila Nova Esperança, localizado na região noroeste da cidade. Trata-se de um bairro relativamente novo que não possui nenhum equipamento de saúde pública. Os habitantes desse local precisam se deslocar por longas distâncias para ter acesso a atendimento médico, exames e tratamentos.

Bem no centro do bairro, existe uma área desocupada, em formato de círculo que, muito provavelmente, foi desenhada para receber uma praça pública com áreas de convivência. Foi construído no local uma quadra poliesportiva, um pequeno playground e uma academia ao ar livre. Porém, se degradou rapidamente, evidenciando o fracasso da ocupação do espaço em virtude da falta de um desenho urbano adequado.


Esse espaço foi selecionado para implantar o Healthcare Hub para atingir dois objetivos simultaneamente: oferecer atendimento à saúde, que o bairro não possui, e ocupar o espaço de forma mais efetiva, dando-lhe o caráter cívico imaginado inicialmente, agregando áreas de lazer e esporte.



O tipo de unidade de saúde



A ideia foi criar um condensador urbano, onde o atendimento à saúde seria a atividade principal: a motivadora da ocupação do espaço.

Sendo assim, o projeto do Healthcare Hub oferece uma clínica pública de saúde básica, espaços de convivência, de lazer e para a prática de esportes.

A clínica terá ambulatório geral (adulto e geriátrico), ginecológico, pediátrico e odontológico; uma unidade de exames por imagem (com raios-X, tomografia computadorizada, densitometria, endoscopia, ultrassonografia, mamografia, ecocardiograma, eletrocardiograma, Holter e ergometria); um laboratório de análises clínicas com capacidade para analisar amostras de sangue, urina e fezes; uma farmácia para a distribuição de remédios; uma unidade de Fisioterapia e uma unidade de Terapia Ocupacional.

O âmbito do atendimento será local, preventivo e de tratamento para recuperação motora e psicológica. Essa unidade não realizará atendimento de urgência, emergência, intervenções invasivas, procedimentos complexos, cirurgias e internações. Será o primeiro estágio do nível de atendimento público, monitorando a saúde da população, distribuindo os pacientes para as outras instituições antecipadamente e tratando casos simples de recuperação motora e psicológica.

Além do programa de atenção e tratamento à saúde, o Healthcare Hub deseja oferecer um espaço cívico, inexistente hoje no bairro.

Nos pavimentos que se relacionam diretamente com a cidade (térreo com dois níveis diferentes), serão criados um auditório (para estabelecer um diálogo com a comunidade e oferecer peças de teatro e shows), uma academia ao ar livre, um playground e uma área para a prática do skate. Todas essas áreas poderão ser utilizadas 24 horas. Na cobertura, que poderá ser acessada diretamente pela entrada principal por escada e elevadores, sem passar por nenhuma unidade clínica, será criada uma quadra poliesportiva que poderá funcionar 15 horas por dia, sete dias por semana.

A proposta é que todos esses espaços sejam construídos para que se relacionem intensamente com a cidade no intuito de melhorar o convívio urbano local.



A tecnologia


Por se tratar de um equipamento social, com gestão pública, optou-se por não dotar o edifício de tecnologias cujo desenvolvimento demoraria muito, tendo custos acessíveis para o Estado. A decisão foi escolher tecnologias que se encontram em desenvolvimento ou já estão disponíveis. Esse equipamento social será gerido por meio de um sistema eletrônico com interface on-line, realizando duas tarefas: gerenciar a relação entre a instituição e os habitantes, por meio de um aplicativo de smartphone, e gerar dados epidemiológicos para um Big Data de saúde, fornecendo informações estratégicas para a gestão pública.

O aplicativo

O Healthcare Hub terá uma equipe de Tecnologia da Informação para gerenciar o sistema eletrônico, o aplicativo de relacionamento com a comunidade e todo o banco de dados gerados.

Cada habitante do bairro terá que instalar o aplicativo em seu smartphone, fazer o cadastro que gera um perfil que será linkado aos membros da sua família que morem na mesma residência. O aplicativo avisará os membros das famílias sobre as datas das consultas, dos exames o dos demais atendimentos. Essa organização será feita pelo sistema eletrônico de gerenciamento da instituição.

A interface, em tempo real entre sistema e aplicativo, terá a função de otimizar os processos, desmarcar consultas com mais rapidez (por meio da confirmação dos moradores e dos médicos), realizar reagendamentos e monitorar a frequência de cuidado com a própria saúde. Assim, será possível saber quando alguém abandonar o tratamento ou não comparecer às consultas.


Big Data


Esse sistema, com a interface do aplicativo, irá gerar dados concretos do perfil epidemiológico da região, oferecendo informações e estatísticas preciosas para o poder público planejar melhor seus investimentos.

A unidade da Tecnologia da Informação da instituição será responsável pela segurança desses dados, impedindo que os históricos de saúde dos habitantes se tornem públicos. A proposta é que os dados sejam codificados e compilados de acordo com as solicitações da Secretaria de Saúde Pública.

Infraestrutura física

Planejamos construir o edifício por meio de sistemas pré-fabricados com componentes, na sua maioria, metálicos. Todo o projeto respeita a modulação de 1,25m x 1,25m, gerando grande flexibilidade para a produção dos componentes, a instalação e as futuras alterações e trocas. A edificação foi pensada de acordo com a necessidade de constantes atualizações dos prédios de saúde, portanto, que seja flexível, facilitando futuras obras e mudanças nas instalações.

Um dos elementos que geram essa flexibilidade é o espaço técnico, dedicado às máquinas mais robustas, localizado acima da unidade de exames por imagem e abaixo da quadra poliesportiva. Esse espaço será destinado para a instalação das máquinas de ar-condicionado, reservatórios de água pluvial, equipamentos para tratamento de água, medidores, transformadores, bombas etc. Seu tamanho permite o incremento de tecnologia, além da facilidade de manutenção dos equipamentos já instalados.



 





Legenda:


01- circulação vertical pública

02- circulação vertical interna

03- casa de máquinas inferior

04- auditório

05- espaço público

06- skate

07- acesso de suprimentos

08- central de energia

09- áreas técnicas

10- segurança

11- almoxarifado

12- lazer infantil

13- conforto médico

14- farmácia

15- vestiários

16- informações

17- assistência social

18- academia aberta

19- sala de espera

20- ambulatório pediátrico

21- ambulatório geral

22- odontologia

23- ginecologia

24- RX

25- endoscopia

26- cardiologia

27- densitometria

28- tomografia computadorizada

29- ultrassom e mamografia

30- retirada de exames

31- andar técnico

32- praça coberta

33- terapia ocupacional

34- fisioterapia

35- secretaria

36- arquivos físicos

37- servidor

38- administração

39- quadra poliesportiva

40- praça descoberta

41- suporte

42- casa de máquinas

43- casa de máquinas e reservatórios elevados


Sistemas sustentáveis

Para reduzir o consumo de recursos naturais, alguns sistemas foram sugeridos.

Para a geração de energia elétrica, propomos um sistema composto por placas fotovoltaicas, sem armazenagem por baterias.

Para o consumo de água, utilizaremos um sistema de filtragem e reutilização de água pluvial e do córrego que existe no local para o acionamento das descargas dos vasos sanitários, cubas de despejo, rega de jardins e lavagem das áreas externas.

O esgoto será totalmente tratado no local por estação compacta formada por filtros anaeróbios e aeróbios, despejando a água limpa no córrego existente.

Geração de energia


O sistema de geração de energia trata-se de uma pequena usina solar, composta por placas fotovoltaicas, que gera energia em tempo real durante o dia, injetando o excedente na rede elétrica local. A capacidade de geração do sistema é de duas vezes o consumo diurno da instituição, sendo o excedente, cerca de 50% da produção, "emprestado" à concessionária pública. Durante a noite, quando o consumo de energia é menor (pois a unidade de exames por imagem e o laboratório não estarão em operação), planejamos uma troca de fonte de alimentação, em que a instituição passará a ser alimentada pela energia da concessionária por meio da "devolução" de parte da energia "emprestada". Dessa forma, não haverá custo de consumo de energia além do valor de instalação e manutenção do sistema, cujo retorno do investimento poderá acontecer em menos de três anos.

Tratamento e reutilização de água

Nossa proposta é captar as águas pluviais e armazená-las em reservatórios localizados no espaço técnico do segundo pavimento que, posteriormente, serão tratadas por filtros anaeróbios, cloradas (para não serem confundidas com água potável) e direcionadas, através de bombeamento, até reservatórios específicos na casa de máquinas da cobertura para que possam alimentar o sistema auxiliar destinado aos vasos sanitários, ao sistema de rega e à lavagem das áreas externas. Nos períodos não chuvosos, esse sistema poderá ser alimentado com a água do córrego existente, que será captada na área técnica do subsolo, bombeada até os reservatórios de reúso, tratada e distribuída no sistema auxiliar.

Tratamento de esgoto

Dentro do nosso planejamento, o esgoto não será despejado no sistema público. Ele será armazenado, tratado e, após apresentar condições adequadas para o meio ambiente, despejado no córrego existente. O tratamento será feito por um sistema compacto, industrializado, composto por filtros biológicos anaeróbio e aeróbio, enterrados e acessíveis pela área técnica do subsolo.





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